Paulo Marchetti - Entrevista


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Entrevista com Paulo Marchetti (jornalista)

Editor: Cesar Gavin

Data: 18/11/2013

O livro "Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília" está sendo relançado (2ª Edição) com algumas novidades. Escrito pelo jornalista Paulo Marchetti que foi integrante da banda brasiliense Filhos de Mengele e diretor de vários programas nas emissoras MTV, Multishow, Cultura, Disney Channel, além de ter dirigido o DVD "Acústico MTV Legião Urbana".

Nesta entrevista, Marchetti comenta sobre algumas curiosidades do livro e como a mídia utilizou suas pesquisas para filmes e documentários. Confira!

"Muita gente da imprensa, da grande mídia, gosta de desenhá-lo como um Messias, mas ele não era nada disso e nem queria ser..." (sobre Renato Russo)

Cesar Gavin: Você vivenciou todo o "movimento"da Turma da Colina, quanto tempo levou de pesquisa para elaborar o livro?

Paulo Marchetti: A ideia do livro surgiu em meados de 1997 e ele foi lançado em junho de 2001. Quase quatro anos. Foram mais de 100 horas de conversas transcritas. Montei um imenso quebra cabeça. Antes de começar a fazê-lo, entrei em contato com algumas pessoas da Turma que poderiam ter tido a mesma ideia, mas ninguém estava pensando em escrever um livro sobre o tema. Apenas o Dinho (Ouro Preto) que, por conta do grande sucesso que o Capital Inicial acabou fazendo em sua volta, estacionou seu projeto de livro.

Cesar Gavin: Nesta 2ª edição, você incluiu mais depoimentos sobre o grupo Aborto Elétrico, o que mais tem de novidades?

Paulo Marchetti: Esses novos depoimentos eu colhi quando o Capital Inicial fez o disco com as músicas do Aborto Elétrico. Fiz um trabalho para a gravadora e acabei conversando mais com eles a respeito do grupo. Os novos depoimentos são a respeito do repertório e composições da época.

Cesar Gavin: Você foi cantor da banda Filhos de Mengele de 1985 a 1987. Como foi este período em Brasília com a “ausência” de Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial que já tinham vindo pro Sudeste?

Paulo Marchetti: Aconteceu uma corrida de cegos em Brasília, porque com o sucesso dessas bandas, todo mundo resolveu montar a sua e as gravadoras ficaram de olho na cidade por um bom tempo. Tanto é que depois rolaram discos do Detrito Federal, Finis Africae e Arte no Escuro. Foi uma coisa meio ridícula em Brasília de todo mundo querer tocar por causa da onda. Mas a qualidade era zero. Eram 500 bandas pra uma razoavelmente boa. O Filhos de Mengele foi uma banda elaborada por Danilo e Paulinho, que já tinham um histórico de bandas desde 1982. A banda acabou servindo de referência para a nova geração que estava surgindo. A geração Hardcore dos anos 1990, com DFC, Os Cabeloduro, o próprio Raimundos (que surgiu dos ensaios do Filhos de Mengele) e outras.

Cesar Gavin: Um dos momentos que gosto do livro é a carta enviada do Renato Russo para o jornalista Hermano Vianna “nossa turma tem identidade. Somos reconhecidos onde quer que a gente vá...”. Em sua opinião, o Renato Russo era o líder do movimento das bandas?

Paulo Marchetti: Não. Muita gente da imprensa, da grande mídia, gosta de desenhá-lo como um Messias, mas ele não era nada disso e nem queria ser. Na Turma da Colina não havia um líder. Havia sim uma hierarquia velada de acordo com quem chegava nela. Então natural os primeiros serem vistos como líderes, mas não era só o Renato, mas sim Fê e Flávio Lemos, André e Bernardo Mueller, Geraldo Ribeiro e Loro Jones.

Cesar Gavin: O grupo Finis Africae era uma promessa da gravadora EMI, mas não estourou como os outros. Teve mais algum artista que poderia ter feito mais sucesso?

Paulo Marchetti: Daquela época, ao meu ver, haviam outras duas bandas que estavam até mais prontas que o Finis Africae, que eram a Escola de Escândalo e Elite Sofisticada. O Escola chegou a gravar uma demo nos estúdios da EMI, mas a gravadora infelizmente não viu potencial comercial na banda (um erro). E a Elite quase foi parar na Warner, mas não aconteceu. Tinha também o Dentes Kentes (uma homenagem aberta ao Dead Kennedys), que era formada por um time de All Stars de Brasília com Fejão (Escola de Escândalo), Ameba (Plebe Rude), Negrete (Legião Urbana) e Fred (roadie da Legião Urbana), e tocava um Hardcore bem elaborado e altamente político. Banda muito boa que também gravou nos estúdios da EMI, mas não vingou. Essa demo da EMI roda na mão da Turma até hoje. Sensacional!

Cesar Gavin: Os filmes e documentários exibidos sobre o Rock de Brasília utilizaram muito como pesquisa o seu livro, o que você achou destas reproduções da Turma da Colina?

Paulo Marchetti: Fiquei muito feliz de ver que o livro acabou se tornando a grande referência a respeito do Rock de Brasília, mas por outro lado, fico muito triste de ver que pessoas o usam como fonte, mas não dão o devido crédito. Muita gente me procura para entrevistas, esclarecer dúvidas, mas quando as reportagens são publicadas não há nada a respeito do livro ou qualquer citação minha. Me usam e depois me descartam. O filme "Somos Tão Jovens" é ruim demais! Roteiro e produção muito pobres. O documentário "Rock Brasília – Era de Ouro" foi um tremendo erro. O único lançamento recente que presta é "Faroeste Caboclo", um grande trabalho!

Cesar Gavin: Seu livro retrata até o estouro do grupo Raimundos, porém, depois deles nos anos 90, o Rock de Brasília também revelou as bandas Maskavo Roots, Natiruts e Little Quail And The Mad Birds. Você tem ideia de fazer uma continuação do livro sobre este período?

Paulo Marchetti: Não há como fazer continuação de um livro sobre a Turma da Colina, pois ela se diluiu após 1986. Há sim um livro magnífico chamado Esfolando Ouvidos, escrito por Evandro Vieira, que conta a história do Rock de Brasília dos anos 1990, a cena Hardcore. Esse livro é uma continuação natural da história do Rock de Brasília. Vale muito a pena. O resto é enganação (risos). Tem muito jornalista que quer, de qualquer jeito, se apossar dessa história do Rock brasiliense, mas são jornalistas que não viveram a história, que não sabem de detalhes, sequer moraram em Brasília e que mal conhecem as pessoas que fizeram essa história. Fuja de qualquer livro ou produto feito por esses profissionais!

Informações:

Título: O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília – 2ª Edição

Editora: Pedra na Mão (Briquet de Lemos Livros)

Preço: R$ 39,00

Compra / pedido: www.briquetdelemos.com.br

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