João Leopoldo - Entrevista


Blog Vitrola Verde

Entrevista com João Leopoldo (pianista, cantor e compositor)

Editor: Cesar Gavin

Data: 27/05/2013

Foto: Guilherme Urban

Toques, habilidades, performance e estilo. Sorocaba, cidade do interior de São Paulo. Distância de 101 km da capital. Lá eu estava semana retrasada, apresentando uma palestra na Oficina Grande Otelo dentro do evento "O preço do som independente ou o som não tem preço". Casa cheia. Muita gente interessada em música e cultura. Local onde conheci o músico e curador do evento João Leopoldo, que é pianista, arranjador e compositor. Com três discos lançados de forma independente, ele já fez uma turnê até na Europa em 2011. Segundo ele mesmo, seu repertório é uma música calmamente feita, com muita calma e ainda influenciado pela vanguarda paulista (ou paulistana) do início dos anos 80 e mais Eduardo Dusek e Walter Franco. Me atentei à performance dele no evento, pois um vídeo que assisti no You Tube deu sinais de onde iria transitar sua apresentação. Ele experimenta, improvisa e se sobressai numa performance teatral. Deu pra entender? Não? Claro que não! Tem que ver. E aplaudir! Fiquei ali pensando no que daria um "duelo" entre ele e Tom Zé. Muitas palavras, eu sei.

Foto: Guilherme Urban

Atualmente João Leopoldo divide o palco com a pianista e cantora paulista Cida Moreira. Juntos fazem uma releitura da obra de Vicente Celestino no show “Canções Fatais”. Um brinde à arte! Cesar Gavin: Desde quando você estuda música? João Leopoldo: Comecei a estudar música aos 10 anos. Em 1987, nessa época por consequência do trabalho do meu pai, morávamos em Belém. Ao ver um pianista tocando pela primeira vez, fiquei fascinado pelo som e pela mecânica do instrumento, naquele momento tive certeza que tocaria piano. Assim que voltamos a São Paulo, viemos morar no interior (Sorocaba) e não demorou muito para ingressar no Conservatório Musical de Tatuí, referência na América Latina como sendo um dos melhores. Entre 1997 até 2008 estudei com a pianista Ana Cristina Del Mastre, por quem tenho eterno agradecimento por ter sido responsável pela minha formação musical como pianista. Cesar Gavin: Com quem você já tocou, além do Silvio Brito? João Leopoldo: Foram algumas passagens rápidas e sempre de imensa importância. Como você citou, fui banda de apoio para o querido Silvio Brito, sempre muito divertido. Uma pessoa muito musical e inteligente com palavras de muita sabedoria para vida. Fiz parte da banda paulistana Temppestt, ao lado de músicos de gabarito ímpar como Leo Mancini, Edu Cominato, Bj, Paulo Soza. - com eles toquei ao lado de Jeff Scott Soto (ex-vocalista de Yngwie Malmsteen ), quando esteve em uma de suas turnês pelo Brasil e Argentina. Com a banda de rock progressivo Banda do Sol toquei ao lado de Billy Sherwood (ex-guitarrista do Yes) num show de rock sinfônico, que foi muito emocionante. Abri show e toquei com o divertidíssimo Eduardo Dusek. Através do grande gaitista David Tanganelli, fizemos time para o grande bluesman J.J Jackson. E recentemente estou em parceria com uma das maiores cantoras desse país, Cida Moreira. Diva e mestra. Cesar Gavin: A nossa música popular vive um momento popularesco. O que pensa sobre isso, sendo que você vem do erudito? João Leopoldo: São mercados e públicos muito diferentes. Na área em que atuo ou como músico de apoio, ou sendo um show solo meu, temos contato com todo tipo de público interessado ou não. Acredito que isso é questão de educação e célula cultural. Vai de encontro com gosto e a necessidade intelecto musical de cada ouvinte. Temos uma diversidade musical democrática que atende todo mundo, de banana a caviar.

Foto: Max Velon

Cesar Gavin: Você escreve a letra ou a música primeiro? João Leopoldo: Encontrar uma razão para escrever, ter uma história interessante ou pequenos jogos de desconstrução com as palavras são os primeiros passos do processo criativo para minha forma de compor. Depois que a ideia nasce, escrevo e rabisco dezenas de vezes o mesmo assunto até me convencer de que está natural o conjunto das palavras. Tenho uma preocupação imensa de não soar arquitetado demais. Por final a música tempera as letras como elemento cênico no papel de coadjuvante daquelas pequenas histórias que criei. Respondendo sua pergunta, geralmente a letra vem antes da música. Cesar Gavin: Você já excursionou na Europa. Como foram estes shows? João Leopoldo: Em 2011 fiquei por três meses na Europa. Tive uma longa negociação com uma produtora de Lisboa para fazer parte do programa musical do cassino em Estoril. Mas chegando lá por conta da crise européia, eles cancelaram as apresentações. Como tenho alguns amigos que moram fora do país há muito tempo, não demorou muito para encontrar bons contatos. E uma das melhores escolas que tive foi tocar na rua onde pude apresentar meu trabalho e sentir a aceitação do público. A partir dali através de grandes amigos que conquistei, não demorou muito a oportunidade de levar minha música para outros países como a Itália e Inglaterra. O público europeu é curioso e não senti resistência mesmo cantando em português. Foi uma experiência de imensa importância para o meu currículo e para vida. Pretendo tão logo voltar para tocar mais e reencontrar as amizades que lá estão. Cesar Gavin: Como está o seu projeto “Canções Fatais” ao lado de Cida Moreira? João Leopoldo: Cida Moreira é sinônimo de inteligência e paixão pela música. Conheci sua obra quando fui parte integrante de um grupo de teatro musical da cidade (Sorocaba) e o competente diretor Fernando Kudder, apresentou o vinil “interpretando Brecht” para minha verde cabeça. Senti um prazer enorme naquela voz potente e no piano bem marcado. Tudo muito criativo e fascinante naquele mundo teatral da música que ela estava executando. Realmente uma fonte inspiradora. Os anos passaram e já com meu trabalho autoral definido e articulado fui atrás do produtor musical Marco de Almeida, com quem já havia trabalho com Cida Moreira. Fiz a proposta do show com releituras das músicas de Vicente Celestino, cantor trágico ícone da década de 30, e para minha surpresa e felicidade ela aceitou. Afinamos o repertório, nome do show e com direção de Humberto Vieira fizemos a estréia no ano passado pelo SESC. Foi um enorme sucesso e nossa sintonia musical cresceu muito. Cida Moreira é uma das maiores intérpretes do mundo, está sendo uma grande escola dividir o palco com seu talento e o show “Canções Fatais” é um brinde à música popular brasileira da qual temos que ter muito carinho para não esquecer.

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