Tritono Blues - Entrevista


Blog Vitrola Verde

Entrevista com Tritono Blues (banda de São Paulo)

Editor: Cesar Gavin

Data: 03/04//2013

Tritono Blues: André Carlini, Bruno Sant'Anna e André Youssef. Foto: Fabio Ghrun

Eles são estudiosos da música. Tritono Blues é um trio fora do convencional, sem guitarra, baixo e bateria. A formação é: André Youssef (piano e voz), Bruno Sant'Anna (cajon e voz) e André Carlini, (gaita e voz). A palavra “Tritono” é um termo vindo da teoria musical que define o intervalo entre 3 semi-tons. Na Idade Média era proibido tocar isso, pois poderia ser condenado pela Igreja Católica. Mais tarde foi amplamente usado na música erudita.

A banda começou de um jeito despretencioso e foi reunida para tocar num barzinho que queria um som bem acústico. O entrosamento foi tão grande que eles acabaram fazendo uma temporada de 1 ano nesse bar por todas as quintas.

O trio chegou a 550 shows em 6 anos de estrada. Além disso, já tocaram em vários veículos de comunicação como o programa do Jô, o Mais Você (Ana Maria Braga) e muitos outros.

Salve o som!

"hoje estamos vivendo ainda o reflexo de toda essa crise, onde a grande mídia prioriza somente um determinado tipo de música"... (André Youssef)

Cesar Gavin: Como surgiu a ideia de mesclar o repertório com os ritmos blues, soul, jazz, rock, entre outros?

André Youssef: Nós três somos bem abertos e ecléticos musicalmente. Já tocávamos em outras bandas antes do TB, que já mostravam uma tendência de misturar o Blues com outras vertentes. O André Carlini tem uma influência de Groove e Jazz em seu som. O Bruno Sant’Anna tem a veia mais rock’n’roll do grupo. E eu sou a ponte entre os dois, vou do Jazz ao Rock’n’roll com muita naturalidade, e ainda tenho uma influência meio Country. Mas todos nós temos o Blues como paixão e ponto de partida.

Bruno Sant’Anna: Essa fusão de estilos aconteceu de uma forma muito natural. Nós três gostamos de vários gêneros, e temos em comum o gosto pelo Groove das músicas de James Brown, Maceo Parker e Stevie Wonder. Isso nós levou a essa tendência Soul, Funk ao Blues que tocávamos no início da banda, o Rock sempre esteve no meu repertório e acabou se incorporando também.

Cesar Gavin: Vocês fizeram um medley "Sossego + "Hoochie Coochie Man". De onde vem esse cruzamento de Tim Maia com Willie Dixon?

André Youssef: Essa música nasceu da seguinte forma: eu trouxe uma versão “funkeada” de Freddy King para "Hoochie Coochie Man". Como a tonalidade e a levada eram próximas de “Sossego”, num show Bruno improvisou alguns versos de Tim Maia. Soou tão bem, que começamos a fazer essa junção nos shows. O Tim Maia foi um dos caras que conseguiu de uma maneira única trazer a linguagem da Black Music norte americana para a música brasileira. Essa faixa, que entrou no CD “Groovin” de 2008 registrou esse momento. Mas o improviso não parou por aí. Incluímos nesse medley trechos de James Brown, Jair Rodrigues e KC and The Sunshine Band. Uma curiosidade: essa faixa do CD foi escolhida pela produção do Jô Soares para tocarmos na canja do Jô. Na passagem de som, fizemos a versão estendida (que nos shows chegava a 10 minutos). O diretor Willem adorou e pediu para tocarmos essa versão para o programa. O desafio foi reduzir esse medley para 2 minutos... (risos).

Cesar Gavin: Como andam os projetos paralelos de vocês?

André Youssef: Eu sou integrante da banda do Nasi (voz do Ira!). Participo constantemente do projeto Geração 80, um show que reúne artistas do Rock nacional da década de 80, como Marcelo Nova, Kid Vinil, Kiko Zambianchi, Roger (Ultrage), George Israel, Ritchie, Paulo Miklos, Marcelo Bonfá (Legião Urbana), Mauricio Gasperini (Rádio Táxi), entre outros. Sou convidado freqüentemente para gravações e shows com nomes do Blues nacional e internacional. Atualmente tenho feito alguns shows com o guitarrista Giba “Guitar” Byblos, que tem um excelente trabalho voltado para blues de Chicago.

Bruno Sant’Anna: O Tritono é a minha prioridade, mas também participo de trabalhos interessantes como a “Kings de La Noche”, uma big band com um grande naipe de metais, que faz versões de clássicos do Rock como Iron Maiden, Deep Purple, Aerosmith, Guns’n Roses, etc. Foi a banda residente da versão brasileira do "Sarturday Night Live" enquanto esteve no ar. Também trabalho com a BSB (Bruno Sant’Anna Band) que faz covers originais de Classic Rocks e com o Blindog Power Blues que tem dois discos autorais.

André Carlini: Sou o líder da banda Lado Black que tem um repertório de Funk, Groove, Jazz e Bossa Nova. Atualmente sou o coordenador do curso de gaita na EM&T (Escola de Música e Tecnologia). Ministro aulas particulares e workshop com temática direcionada ao uso da rítmica para formação da linguagem na improvisação.

Cesar Gavin, André Youssef e Nivaldo Campopiano (banda do Nasi) no programa Login em 2010

Cesar Gavin: André, como você ingressou na banda do Nasi?

André Youssef: Eu sempre fui muito ativo na cena blues paulistana desde a década de 90. Tudo começou com um grande amigo e músico que conheci nessa época, o tecladista Adriano Grineberg. Na década seguinte, Adriano fez alguns shows com o Nasi, e acabou sendo convidado para ingressar no Ira! na turnê do acústico MTV, por volta de 2004. Quando o Ira! acabou em 2007, Nasi decidiu seguir com sua carreira solo, e como Adriano não podia assumir as teclas, me indicou. Nessa época eu estava fazendo alguns shows com Junior Moreno, baterista do Blue Jeans, que também foi escalado para a banda do Nasi. O Junior também falou no meu nome. Logo no primeiro ensaio pintou uma sintonia e acabei entrando para a banda, e estou lá desde 2008.

Cesar Gavin: Como vocês enxergam a música brasileira hoje? Criativa ou limitada?

Bruno Sant’Anna: Acho a música brasileira ativa e criativa, temos ótimas bandas em quase todos os gêneros musicais. Porém a música brasileira também está limitada. Vejo os artistas procurando espaço, bandas novas e veteranas batalhando por espaço para não serem esquecidos. Quem gosta de música, para achar as novidades, discos de bandas novas ou lançamentos de bandas veteranas, tem que ir atrás, pesquisar na Internet, nas casas de shows, na programação do SESC, no circuito underground e similares. A nova e a velha música brasileira sofrem de ausência de mídia. O rádio está deixando de tocar muita coisa boa. Os músicos precisam ser ouvidos para identificar o seu público e alimentá-lo. Não seria o rádio a maior mídia da música? Hoje em dia temos toneladas de Axé, Funk Carioca, Sertanejo Universitário e Pop internacional, com uma superexposição devido a sua representatividade comercial. E a representatividade cultural como fica? Sinto falta do Jazz, Erudito, Soul, Blues, Rock nacional de qualidade. Temos tudo isso aqui, músicos excelentes, trabalhando, mas fora da mídia. Acho que o “negócio música” deveria ser reavaliado para melhorar o nível cultural do brasileiro. Deveríamos ter música nas escolas, nos parques, tem muita coisa para mudar, acho que a cultura geral do Brasil empobreceu muito nos últimos anos. Nos shows e eventos que o Tritono tem feito, sentimos uma enorme gratidão do público por tocarmos nossas versões, e também gostam de nossas músicas autorais. Ouvimos muito que o nosso repertório agrada, é prova de que tem mercado e público para isso. Para encontrar boa música tem que ir atrás, e muitas vezes pagar caro por isso.

André Youssef: A música brasileira sempre foi criativa e continua sendo. Tivemos a era do rádio na primeira metade do século com cantores maravilhosos acompanhados pelas orquestras das rádios e TVs. Foi a era da Bossa Nova na virada dos 50 para os 60, que sintetizou o samba com a música americana e representou o Brasil lá fora, a era dos festivais com a MPB de um lado e a Jovem Guarda de outro, com platéias lotadas torcendo e sendo exibido em horário nobre na TV brasileira. O Rock brasileiro tomando corpo na década de 70, atingindo a juventude na década de 80, ainda com o forte apoio das rádios e TVs. Com a mudança de governo, a crise no final dos anos 80 e virada para os 90, o foco mudou. Como disse o Bruno, o dinheiro começou a mandar. O Sertanejo se fortaleceu, na sequência o Pagode, depois o Axê e o Funk carioca. Esses estilos mais populares tem o seu valor, e é necessário que eles existam, mas a mídia esqueceu do resto. No final dos anos 90 começou a pirataria e a crise da indústria fonográfica na virada dos anos 2000. Os executivos das gravadoras eram pessoas com extrema sensibilidade musical. Essas pessoas foram dando lugar aos empresários que só pensavam no lucro. E hoje estamos vivendo ainda o reflexo de toda essa crise, onde a grande mídia prioriza somente um determinado tipo de música.

Foto: Fabio Ghrun

Cesar Gavin: Como foram as gravações do álbum "Mojito do Bom" e o trabalho com o renomado engenheiro de som Luis Paulo Serafim?

Bruno Sant’Anna: Foi muito legal, um baita aprendizado trabalhar com o mestre Luis Paulo Serafim, o LP. Ele deixou o clima muito alto astral e isso se materializou no som do disco. Tivemos liberdade total para criar até durante as gravações no estúdio do Bruno Cardozo, outro mestre que deu maior força. Foram muitas risadas que não me canso de agradecer o LP pelo astral e pelo resultado do trabalho. LP é um dos maiores engenheiros de som do Brasil, dos mais requisitados, contribuiu com várias idéias, sonoridades e arranjos para o disco “Mojito do Bom”.

Cesar Gavin: Qual a formação musical dos integrantes?

Bruno Sant’Anna: Fiz ULM (Universidade Livre de Música Tom Jobim), lá desenvolvi muito minha técnica e percepção musical, foi o início da minha profissionalização. Outra grande escola é o dia a dia da profissão, de show em show, o contato com outros músicos é fundamental para o desenvolvimento de seu repertório, descoberta de outras sonoridades e o aumento da capacidade musical. Todo dia aprendo uma coisa nova na música e na produção musical.

André Youssef: Eu comecei muito cedo. Aos 7 anos fiz iniciação musical no CLAM (Escola de Música do Zimbo Trio). Dos 8 aos 15 estudei órgão em conservatórios e com professores particulares. E dos 15 aos 18 estudei piano. Toco profissionalmente desde os 17 anos, completando 20 anos de carreira, e com certeza a experiência que adquiri na estrada, é insubstituível. Continuo aprendendo.

André Carlini: Tenho 20 anos de gaita. Sou autodidata no instrumento desde 1989. Me aprimorei em estudos teóricos na Fundação das Artes de São Caetano com o auxílio de meu pai, o violonista Marivaldo Carlini. Em 1992, tive aulas com o professor de gaita Pithy e mais tarde estudei com o gaitista Sergio Duarte.

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