Albert Pavão - Entrevista


Blog Vitrola Verde

Entrevista com Albert Pavão (cantor e escritor)

Editor: Cesar Gavin

Data: 06/01/2012

Hoje o Vitrola Verde viaja até os primórdios do rock brasileiro e entrevista o mestre Albert Pavão, que é um grande pesquisador, escritor e artista da Jovem Guarda.

Albert Pavão está relançando o livro "Rock Brasileiro 1955-65" (editora Edicon), um relato pioneiro de uma época em que o rock feito aqui era ingênio, verdadeiro e que deu start para o estouro da Jovem Guarda e posteriormente a Tropicália. O livro tem fotos e histórias espetaculares daquela geração de artistas que ousaram tocar rock num país reinado pela ditadura. Não deixe de ler, adquira o livro pelo email: alpavao@gmail.com. Vale a pena!

Boa viagem!

CG: Nesta segunda edição você complementou o livro (lançado em 1989). Tem algo que você poderia dizer para deixar o leitor com curiosidade?

AP: Essa é uma segunda edição do livro de 1989. Eu não pretendia lançá-lo até o final de outubro do ano passado. Foi quando a editora me procurou e disse que queria lançar uma segunda edição do livro em ebook. Aí eu sugerí de lançar em papel alguns exemplares pois havia muita coisa para incluir na discografia. Combinado isso, fiz uma revisão nos textos das duas partes de história, que são trajetória e personagens e depois busquei num arquivo, todas as xerox de capinhas de compactos e LPs e anotações sobre gravações que não estavam na discografia e fiz a inserção das mesmas.

CG: Você escolheu o periodo no livro entre 1955 a 1965. A idéia era relatar o rock brasileiro até o início do programa Jovem Guarda?

AP: Escolhí o período de 1955, quando foi gravado "Rock around the clock" até 1965 quando começou o programa Jovem Guarda e em consequência, um sucesso muito maior do rock brasileiro.

CG: Quando você escreveu o livro, se surpreendeu com algum fato em suas pesquisas?

AP: Houve vários. O mais marcante foi que eu tinha uma lista de gravações de rock feitas no Brasil e, no mesmo mês de outubro havia duas de "Rock around the clock", uma da Nora Ney cantando, pela Continental e a outra do acordeonista Frontera, solando, pela Columbia. Como eu não tinha o dia de outubro em que cada um gravou, pelas revistas da época fiquei sabendo que o lançamento de Nora Ney foi anterior ao do acordeonista e ela, realmente foi a primeira cantora brasileira a gravar rock and roll.

CG: Em minhas pesquisas musicais, noto que até hoje os bossanovistas tentam "omitir" a Jovem Guarda. Você também sente isso?

AP: Não são só os bossanovistas, mas também o pessoal da MPB que era ligado a festivais, não conseguem engolir o sucesso da Jovem Guarda. Um historiador que se preze não pode excluir um acontecimento, só porque não gosta do que aconteceu.

Albert Pavão e Cesar Gavin

CG: O seu livro me ajudou muito como pesquisa quando eu tinha o programa Rock Cultura (Rádio Cultura Brasil). E descobri artistas que teoricamente gravavam outros ritmos, chegaram a gravar rock, como Wilson Simonal, Angela Maria e Agostinho dos Santos. No seu entendimento eles eram influenciados pelo rock ou transitavam nos dois ritmos?

AP: O Wilson Simonal tinha um enorme talento e embora tenha começado cantando "Terezinha", logo alçou vôos maiores. Já Agostinho dos Santos, assim como Cauby, gravou "Até logo Jacaré" para aproveitar a onda do rock and roll.

CG: Teve algum artista injustiçado neste período (artisticamente ou prejudicado por alguma gravadora)?

AP: Eu acho que um grande injustiçado foi o Sérgio Murilo. Ele ficou dois anos sem gravar por sua briga com a CBS e deu chances ao crescimento de Roberto Carlos.

CG: Como era as gravações de discos? Existia um bom produtor ou o talento individual foi mais forte?

AP: Nessa época, acho que valía mais o talento individual.

CG: Como foi a sua gravação de "Vigésimo Andar (Twenty Flyght Rock, de Eddie Cochran)" e "Sobre Um Rio Tão Calmo (Up a Lazy Rider, de Hoagy Carmichael)", que teve produção do Rogério Duprat?

AP: Quando eu fui fazer meu primeiro compacto para a VS, escolhí duas músicas: "Vigésimo andar" e "Sobre um rio tão calmo". Eu estava ensaiado com a banda The Hits, de São Paulo, que me acompanhava desde julho de 1962. No entanto, o Rogério Duprat queria um som mais cool, um arranjo diferente e colocou músicos de estúdio, todos de grande capacidade. Gravamos com o técnico Milton, da Gravodisc que gostava de rock e tudo se fechou. A gravação ficou muito boa e as rádios começaram a tocar com bastante frequência. Se ao invés da VS eu estivesse numa Odeon, teria sido um sucesso muito maior.

CG: Poderia dizer um pouco da influência de seu pai Theotônio Pavão na sua carreira e da sua irmã Meire Pavão?

AP: Meu pai teve muito pouca influência na minha carreira. Ele não era muito ligado ao rock e, quando minha irmã começou a gravar solo, minha influência sobre ela foi grande, pois algumas músicas que ela gravou foi por minha escolha. Exemplo: "O que eu faço do Latim?" eu descobrí numa gravação de um roqueiro argentino. Só depois, fiquei sabendo que tinha sido lançada pelo Gianni Morandi.

CG: Voce vê alguma relação entre o rock feito no Brasil na década de 60 e de 80? Talvez esta, as décadas mais importantes do rock brasileiro.

AP: Realmente as décadas de 60 e 80 foram muito fortes para o rock brasileiro. A de 60 culminou com o movimento Jovem Guarda que dominou as paradas de sucesso com artistas e compositores inspirados. Já nos anos 80 foi o chamado BRock que dominou a cena musical, mais com bandas como RPM, Ultraje, Paralamas, Legião e outras mais. Só que era outro contexto: volta gradual da democracia, novos temas, o rock não mais se restringia ao eixo Rio-SPaulo, etc.

CG: Você acha que a internet favorece ou prejudica a música?

AP: É fora de dúvida que o advento da internet favoreceu a baixar de arquivos musicais, o que reduziu a compra de CDs e provocu o enfraquecimento da industria musical. No entanto, fora isso, a internet é um excelente meio de divulgação de obras que são colocadas no you tube e redes sociais e passam a se tornar conhecidas rapidamente.

CG: O Brasil ainda faz música boa? Quem?

AP: Ainda temos grandes compositores como Caetano, Chico e alguns da bossa nova. Só que o que se faz hoje perde para o que se fez ontem. E não é saudosismo. É constatação.

#cesargavinentrevista #blog #news #2012 #albertpavão #meirepavão #rpm #paralamasdosucesso #ultrajearigor #legiãourbana #caetanoveloso #chicobuarque #wilsonsimonal #angelamaria #sérgiomurilo

©Copyright 2011 Super Vinyl - Todos os direitos reservados