Finho - Entrevista


Blog Vitrola Verde

Entrevista Finho (poeta, compositor e cantor da banda 365)

Editor: Cesar Gavin

Data: 16/11/2011

Assista aqui a entrevista em vídeo, realizada em 2015.

Está saindo do forno o livro "Poemas de Combate (Ed. Naturales 11a)", do poeta, compositor e cantor Carlos Finho, vocalista do grupo paulistano 365.

O livro é uma união de 30 letras e poemas entre 1977 a 2011 escritas pelo compositor do grande sucesso do 365 "São Paulo", banda que este ano completa 25 anos.

Carlos Finho conversou com o Vitrola Verde e contou sobre o lançamento do livro, coisas do cotiano e sobre suas bandas 365 e MMDC.

CG: Como surgiu a idéia do livro e editora?

CF: Penso em publicar um livro desde criança. Meu pai era músico numa igreja evangélica, tocava violino, portanto música pra mim era algo muito sério, tão sério que não podia ser profissão.Vivíamos em meio a dificuldades enormes, mas o violino estava sempre bem cuidado. Era a maior riqueza da casa, talvez a única. Meu pai era soldado da PM e minha mãe era costureira, com 3 filhos. Uma situação muito difícil. Na rua onde eu cresci, até meus 15 anos, não havia esgoto, água encanada ou iluminação pública. Numa situação dessa, não da pra você virar para seus pais e dizer que você quer ser escritor, né? Mas eu fiz isso e eles, passado o mal estar, disseram que eu poderia ser jornalista, num país de analfabetos, ou seja, ninguém compra livro, mas jornal vende bem. Com 12 anos comecei a trabalhar e com 14 tirei carteira profissional pra ser office-boy, depois caixa de banco, fiquei um ano no exército, tive casamento e uma morte lenta e quase indolor.

O rock'n roll apareceu na minha vida como uma diversão, um escape. Passei a cantar, pois não gostava da maioria dos caras que eu via cantando. Transferi meu lado literário para as letras. Há alguns anos pensei em editar uns poemas. Fui sondado por umas “editoras” que pareciam animadas com a idéia. Depois de algumas conversas, percebi que os caras queriam que eu escrevesse sobre as gangues do fim dos anos 70 e começo dos 80. Me perguntavam quem comia quem, que drogas usávamos, se havia homossexuais... me toquei que eles queriam um livro de fofocas. Decidi abrir minha própria editora, a Naturales11a.

CG: O que te inspira pra escrever? O nome do livro é Poemas de combate. O que é o combate?

CF: Pra ser sincero, estou sempre “inspirado”, se isso significa: com vontade de escrever algo que me emociona. Vira e mexe eu ouço dizer: escrever é mais transpiração do que inspiração! Pra mim não. Não há esforço, nem chateação. Até transpiro, mas está mais para sexo do que para trampo.

Quanto ao nome “Poemas de Combate”, eu sempre me identifiquei com a figura do guerreiro. Quando criança, fiquei encantado quando descobri que Camões era soldado. Talvez fosse uma maneira de valorizar a profissão do meu pai, que era duplamente mal vista:

1- Militar durante um regime militar.

2- A mais baixa patente, o mais baixo salário num país que sempre foi preconceituoso com pobre.

Com o tempo, passei a me interessar pela visão do combate espiritual. Aquilo que São Paulo Apóstolo chama de “o bom combate” ou o que o Corão chama de “Jihad”. O verdadeiro combate é aquele travado contra o único inimigo possível... eu mesmo. Vencendo, eu perco, perdendo, eu ganho! “Aquele que quiser ganhar sua vida, terá que perdê-la”. Está escrito nos evangelhos.

Sempre me emociono ao lembrar dos textos budistas que afirmam que o iluminado torna-se um ser completo quando, ao se livrar do ciclo de nascimento, morte e reencarnação, insere-se novamente nesses ciclos, para amparar aqueles que ainda estão presos ao sofrimento. Isso é o Combate.

CG: O nome da sua editora é o nome de uma rua que você morava. Qual a relação disto?

CF: Naturales11a é o nome de uma rua que não existe mais e o número de uma casa que foi derrubada, onde eu morei. Foi uma fase da minha vida onde eu cheguei a acreditar que a mentira tinha vencido e eu não poderia fazer mais nada para mudar essa situação. Conheci uma pessoa pela qual me apaixonei e pela qual sou apaixonado até hoje, 16 anos depois. Sei que isso parece meio bobo e fora de moda, mas é a pura verdade. Passamos fome, tivemos filhos e quando dei conta por mim, eu tinha mudado e o mundo era outro.

CG: Faltou algo no livro, que você pretende lançar futuramente?

CF: Não. Este livro é assim mesmo. Tinha que ser o que é. A ideia era colocar algumas letras com informações sobre elas. Tipo: fiz em tal lugar, pensando em tal coisa. Daí eu decidi juntar letras desde meus 12, 13 anos, até hoje, sem explicar coisa nenhuma. Fiz uma coletânea de poemas que eu sinto que estão mais próximos de mim neste momento e pronto.

Pretendo lançar no próximo ano alguns contos ou um romance chamado "O Vocalista". Esse romance conta a estória de um garoto da periferia que vira uma celebridade depois de compor uma música que fala da cidade que o rejeitou durante toda a vida, uma mãe desnaturada que ele ama com todas as forças... não sei de onde eu tirei essa ideia.

CG: Você ainda se identifica com a cultura punk rock?

CF: Eu sempre falei uma coisa para os caras na época, mas todo mundo torcia o nariz. Foi a cultura punk que se identificou conosco. Muitos de nós já andavam de calça jeans com a boca apertada e jaquetas pretas por causa do rock dos anos 50. Mesmo as botas e coturnos eram uma alusão ao início do rock... James Dean, Marlon Brando... a música punk é o rock básico também. Quanto a revolta, não preciso nem dizer. O lance alternativo é uma decorrência da movimentação juvenil, que passou a acontecer no hemisfério norte, depois da segunda guerra mundial. Quanto a política, que mais poderíamos falar no fim dos anos 70 e começo dos 80?

O fato é que esse tal de movimento nunca foi devidamente engolido pelos gênios que se propuseram a pensá-lo. A coisa toda nasceu em São Paulo e isso é uma sentença de morte para qualquer movimentação cultural deste país. Ao contrário do que dizem, cultura dá muito dinheiro e as forças que controlam isso no Brasil estão localizadas fora daqui desde as Capitanias Hereditárias, coisa que, aliás, não tivemos aqui em Piratininga, graças a Deus.

Você consegue imaginar uma movimentação espontânea de jovens pobres no Brasil?

Você consegue acreditar que o porta voz disso era um adolescente negro da Freguesia do Ó (Clemente)? É claro que não. Essa não é a fórmula que os pensadores têm para os pobres se manifestarem. Nota-se que os playboys nunca conseguiram se adaptar ao que fizemos, ao passo que outros “estilos” caem como uma luva no som de uma Hylux.

CG: Em uma de suas composições "Tietê", do álbum "Do Outro Lado do Rio", você faz uma alusão a história do Brasil e ao mesmo tempo com a cidade de São Paulo. Você ainda sonha que esta cidade vai afundar?

CF: Uma vez eu fiquei preso num cartório no centro da cidade depois de uma daquelas tempestades que param tudo. Quando a água começou a baixar, nós office-boys fomos postos pra fora e eu dormi no ponto de ônibus. Sonhei que a cidade tinha afundado. Quando fiz essa música, coloquei essa e outras impressões. O “de fora pra dentro” é o fato inusitado do Tietê correr do mar pro sertão. Ele não corre exatamente do mar pro sertão. Sua nascente está num declive que se acentua em direção ao centro do estado, indo para o norte se encontrar com os outros rios, que formam a bacia do Prata, lá pro sul.

Os paulistas sempre sonham com água. Usamos o curso do Tietê para colonizarmos o Brasil e isso nos deu um certo complexo de culpa. Pagamos o preço por fazer do nosso jeito. Somos do "it your self" desde sempre.

CG: Existe possiblidade de um segundo disco do MMDC, projeto que você dividiu com Ari Baltazar do 365 em 1997?

CF: O MMDC tem umas particularidades que eu vou esclarecer. Em 1995 deixei o 365 por discordar da maneira como a banda era conduzida. Eu pretendia dar uma cara mais política à banda, reforçando o lado poético. Sempre gostei de siglas e MMDC me soava muito bem com sua óbvia carga histórica. A capa e os encartes foram tirados de cartazes da revolução de 32, impressos por uma empresa nas comemorações de 50 anos da revolução.

Quando eu saí do 365, o Junior e o Ari, baixista e guitarrista respectivamente da banda, perguntaram se eu tinha um projeto e se ofereceram pra participar. Aí, é claro que tudo ficou com cara de 365. O Ari é um dos melhores e mais criativos guitarristas que o Brasil já produziu, seria impossível não ter uma grande influência dele no disco. Tenho pensado num segundo CD. Venho até compondo material para um possível segundo disco, mas a maneira como a banda terminou foi traumática e isso não me anima muito. Eu era segurança de um shopping, trabalhava 12 horas por dia com uma folga semanal. Era difícil ensaiar. Um dia um vocalista amigo me ligou perguntando por que eu havia saído da banda e eu disse que não tinha saído. Ele falou: eu estou no estúdio ensaiando com a sua banda pois os caras disseram que você saiu. Foi muito triste! É a primeira vez que estou contando isso pra alguém. Liguei pra quem devia ligar e mandei parar tudo. Um começou a culpar o outro. Sabe como é trairagem, tem que ter estômago. Nunca sacaneei ninguém, tenho banda desde os 14 anos e a vida toda só toquei som próprio pra neguinho não dizer que eu tava na cola, mas mesmo assim tive que lidar com isso.

Agora, feridas mais ou manos curadas, se for fazer alguma coisa com o MMDC, vai ser uma vibração diferente com outras pessoas.

CG: Em breve será relançado CD com os 2 primeiros álbuns do 365 + bônus, você pode adiantar algo sobre estas músicas?

CF: Esse relançamento foi conseguido a duras penas. Comecei a encher o saco dos caras da Warner com um possível relançamento do primeiro LP que completa 25 anos em 2012. Quando obtinha resposta, era algo vago. Contatei o Cesar Prado, sujeito homem, meu amigo pessoal e ex-funcionário da casa pra sondar os caras. Foi a conta. Os caras compraram a idéia e se propuseram a relançar os dois primeiros LPs. Isso já havia sido feito pelo querido Charles Gavin em 2002/2003 no projeto Arquivos Warner, dirigido por ele. Essas 4 músicas são músicas tiradas do álbum “Outro Lado do Rio”. São: "Tietê", "Manhã de Domingo", "Quando Parti" e "Cristo Anistiado". Fazem parte de um repertório maravilhoso que foi pouco executado em rádios, devido às dificuldades inerentes a produção independente.

CG: E ainda sobre o primeiro álbum, como foi a escolha da faixa "Grândola Vila Morena", que é do português Zeca Afonso, canção utilizada como senha de sinalização da Revolução dos Escravos ?

CF: Foi tudo idéia do Ari Baltazar. Ele é filho de portugueses e ouvia a música em casa, sem saber da carga política dela. Eu acho que quando ele soube do lance da senha pra revolução, ele apresentou a versão com mais segurança, tendo em vista o apelo que isso teria no momento em que vivíamos. Foi muito espontâneo, como tudo que ele cria.

CG: O que você tirou de melhor pra vida de sua brilhante carreira no 365?

CF: Aquilo que eu tirei de melhor nesses quase trinta anos de 365 pode ser resumido em uma palavra: gratidão. Aprendi que devo, sempre que possível, expressar meus agradecimentos às pessoas que estão comigo. Ao contrário do que possa parecer, isso faz com que a gente se lembre a todo tempo que estamos sozinhos. Estamos na escuridão, mas como as vistas se acostumaram com a situação, temos a ilusão de que enxergamos. É aí que a gente se arrebenta. É necessário estar sempre tocando os companheiros de caminhada, dando e recebendo apoio nessa caminhada miserável e gloriosa, que é a condição humana. Pra quem acredita num perfeito amanhecer como eu acredito, é possível até ser feliz de vez em quando.

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